Terràvista!
19/02/2013 § Deixe um comentário

Como abrir uma brecha atlântica
Quando pensamos que o carnaval se acabou, chega uma notícia dalhures, uma mensagem numa garrafa de 51 abandonada nas areias de Copacabana. Abrimos o envase de odor acre, estilhaçando o vidro na pedra do Leme que assim batizamos. Retiramos o papiro manchado com o suor de pierrots e colombinas, desgrudamos cautelosamente os confetes pisados e deixamos secar ao sol escaldante carioca enquanto bebemos dois galões de mate com meio galão de limão.
Logo esquecemos por completo essa estranha interrupção, até que o Mestre Bambu, após decepar sete banhistas preguiçosos, finca seu corpo na superfície arenosa, fazendo esvoaçar o papiro órfão. Já totalmente seco e quase incandescente, pôde agora ser lido:
“FALA AOS FILHOS DE BRASÍLIA QUE VOLTEM À PORTUS CALE! ABRE UMA BRECHA ATLÂNTICA E MARCHA NO TEMPO DAQUELA QUE DEU LUZ À HERMES!”
E com esse estranho delírio, soubemos:
O QUE VOCÊ GOSTARIA QUE FICASSE irá em maio à Portugal, participar da programação do Ano do Brasil em Portugal!
Terra à vista!
E pra quem fica do lado de cá, tem mais três rápidas semanas para assistir O QUE VOCÊ GOSTARIA QUE FICASSE no Laura Alvim – Espaço Rogério Cardoso.
Casa de Cultura Laura Alvim Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema Terças e Quartas, às 21h00ESQUINAS 52_ De todos e de ninguém
01/02/2013 § Deixe um comentário
Saiu a revista ESQUINAS <<AQUI!>>, publicação do jornalismo da Cásper Líbero (SP). A revista traz um panorama geral da atuação dos coletivos, nas páginas 46 a 49 (“De todos e de ninguém”), e uma entrevista com alguns membros do brecha COLETIVO.
A publicação ainda fala sobre financiamento colaborativo e alguns projetos bacanas, como o “Pimp My Carroça”, Ônibus Hacker, além de uma matéria sobre o Circuito Fora do Eixo.
Vale à pena conferir!
“O que você gostaria que ficasse”, de volta, no Laura Alvim
21/01/2013 § Deixe um comentário
“O que você gosaria que ficasse”, segunda peça teatral do Brecha Coletivo, é um híbrido de happening e encenação, criado a partir de discussões sobre o livro “O Mundo Sem Nós”, de Alan Weisman.
É um trabalho que se desenvolve como uma espécie de cartografia dos afetos, que a cada apresentação colhe do público presente uma série de amostras de nosso desejo e necessidade de permanência.
Pelo futuro da Cultura e da Educação: repensando caminhos e políticas públicas
18/01/2013 § Deixe um comentário
Antes de darmos início a esta conversa infinita, gostaria que cada um de nós refletisse sobre os pontos importantes para si e tivesse acesso a algumas informações que considero relevantes, mas que não sei se todos compartilham.
Aliás este é talvez o principal eixo da discussão das políticas públicas. Cê já parou pra pensar nisso? Mesmo? E veio lá do seu âmago mais profundo?
Pois então, acho que poderemos ter uma conversa bonita e com resultado considerável, de forma que todos sairemos enriquecidos e mais esclarecidos. Que assim seja.
Não sei se todos aqui conhecem o Danilo Miranda, por isso tenho vontade de apresentá-lo. Acho-o uma figura importante para o Brasil e uma autoridade como poucas no que diz respeito a pensar as políticas públicas culturais, esfera esta que, como país com resquícios provincianos, ainda estamos engatinhando. Pois então, “se ainda não aprendemos a falar”, como poderíamos abrir uma conversa sobre o tema?
VOCÊ AÍ QUE TEM UM PROJETO, TEM EM MENTE A CONTRIBUIÇÃO EFETIVA QUE ELE DARÁ PARA A SOCIEDADE?
Compartilho aqui duas palestras com o Danilo, há 27 anos diretor geral do SESC, onde trabalha há mais de 40 anos e um dos maiores financiadores da cultura junto às estatais e às grandes empresas.
No primeiro vídeo, Danilo apresenta a origem do Brasil como país e mostra que ainda praticamos ações políticas como no ato de sua fundação. A partir daí, propõe novas diretrizes pautadas em políticas adotadas por outros países, na sua experiência como gestor e no casamento essencial entre educação e cultura, sem o qual fica difícil começar a conversa.
Pelo que tudo indica, parece que o Estado Brasileiro, assim como o sujeito moderno, já nasceu com a cisão entre educação e cultura. Como poderíamos pensar neste casamento?
No segundo vídeo ele conta um pouco sobre sua trajetória formativa e profissional e defende alguns valores a serem adotadas pela cultura.
Propõe, por exemplo, a educação contínua e informal, ou seja, que ela seja frequente mesmo depois da escola e da universidade. Lembra que a arte é somente um dos pontos de uma cultura que gera comportamentos e influencia nos aspectos econômicos. A arte seria então, junto com a educação um dos principais instrumentos culturais para geração de novos comportamentos, continuidade da educação informal e olhares sobre a realidade. Curioso notar que nenhum dos nossos partidos tem a cultura como eixo central de sua campanha. Sugiro a existência de alguma política cultural que proteja a arte de ser financiada somente a partir das leis de mercado. Assim já acontece em países da Europa onde a arte é pensada “fora” dos Tratados Econômicos. Penso que este é o eixo da discussão mais uma vez suscitada pela concentração de investimentos em espetáculos que se enquadrem nas leis e nos valores propostos pelo mercado. Mas o caráter provocativo das artes, onde fica? Porque este lugar da arte em relação à cultura é histórico e muitíssimo importante. Que existam políticas públicas milionárias para a arte consagrada. Mas que também existam políticas culturais que incentivem o exercício da provocação (chamar a si) para que o “público pós escola” e universidade, que deveria ser consumidor de cultura, possa repensar sua vida, seus valores e se reposicionar na cultura. Provocar é uma importância fundamental que a arte tem na cultura e no desenvolvimento de uma sociedade, sem o qual, fica difícil pensarmos numa melhoria. Quando um país se preocupa com a cultura como base de desenvolvimento, o respeito social é maior.
A origem da política pública do Estado brasileiro se deu pela exploração dos índios, escravos e pobres, o que continua até hoje. Esta é a ética (ethos, do grego morada, hábitos) que está implícita nas relações políticas (e muitas vezes escusas) propostas pelo nosso Estado e que penso ser no século XXI, o ponto de mutação para uma sociedade que deveria ter como intuito o estabelecimento de políticas públicas acolhedoras tanto pra receber, quanto para envolver as pessoas no processo criativo, aumentando assim seu desejo de colaborar na gestão social e cultural da sua cidade, de seu país. E não para submtê-las às políticas “umbilicais e geradora de pobreza”. Eis ao meu ver, o que afunda nosso país dificultando cada vez mais nosso processo em andamento e a conjugação de políticas públicas que articulem educação e cultura. Uma das principais autoridades em educação no mundo hoje, o português José Pacheco, denúncia que os gestores do povo estudaram nas melhores escolas. E por quê será que a educação brasileira gera um número baixíssimo de consumidores de cultura? Existe alguma falha no processo que é preciso entender.
Importante ressaltar que no Brasil, diferentemente de outros países, o multiculturalismo é tido como uma “benção” e fonte de criação, ponto que devemos valorizar e estabelecer cada vez mais políticas culturais que ajudem a cultuar e valorizar uma das maiores riquezas culturais do povo brasileiro.
Danilo, nos lembra ainda, que há tempos atrás, quando a cultura fazia parte do Ministério da Educação, dispunham de 25% do orçamento federal, mas quando o Ministério da Cultura foi criado, nasceu sem nenhum recurso financeiro, o que “quase” continua até hoje.
Pra além das grandes produções dos musicais, acho que o importante é conscientizarmos os gestores culturais, e aqui entram os diretores das grandes empresas que financiam a indústria do espetáculo regidos apenas pelas leis de mercado, esquecendo que estas são também parte da cultura. Penso que aí entra o governo e as políticas culturais que além de muitos pontos, um me parece mais do que óbvio: qualquer coisa que tenha dinheiro público, além da transparência de informações, deve ser acessível ao poder econômico da maior parte da população. Esta questão é velha e um dos principais valores quando queremos manter o exercício da democracia. Prática que, como tentei mostrar, já nasceu escamoteada e comprometida na fundação do nosso país.
À maiêutica, à paidéia e à parresia, mas sem esquecer que um debate é uma troca de ideias e uma discussão, uma troca de ofensas.
Por um Brasil mais justo pra todos. NUNCA TIVEMOS DEMOCRACIA – enquanto aceitarmos-na como binária, a maioria (fundadora do império) em detrimento da minoria (social), será uma grande falácia e geradora de pobreza e violência. Esta é a engrenagem da maquinaria que precisa ser desarticulada. E uma grande contradição, quando nos damos conta de que uma minoria rica que teve acesso “ao que há de melhor em termos de educação” é uma das maiores geradoras de pobreza pelas políticas públicas que regem. Repensemos, urgentemente, os valores que estamos propondo através das políticas culturais e educacionais.
Por fim, gostaria de compartilhar o sentido da palavra violência em sânscrito que quer dizer força vital. Enquanto a força vital da maioria estiver sendo violentamente represada pelo pequeno grande poder exercido pela minoria (nascida em berço esplêndido), detentora do poder econômico e, como disse recentemente, Marilena Chauí pelo achatamento do público a partir da esfera privada, continuaremos a ver a violência que estamos acostumados: aquela que degrada os corpos, seja física ou simbolicamente. Sinto muito, Senhores Governantes, mas isso não é democracia. Ainda é preciso descobrir que não há necessidade de exercer a mais valia para haver ganhos financeiros. Quando lucrar vira algo mais importante que a Vida e termina por justificar toda violência e roubo do comum pela esfera privada, creio que algo precisa ser urgentemente repensado.
Temos muito o que aprender com Jacques Rancière e sua proposição para uma revolução estética.
E pelo fim dos fins escusos e perversos vale lembrar que autoridade é fazer crescer, dar apoio ao crescimento. E então, Senhores Governantes, o que me dizem?
Beatriz Lopes Corrêa de Mattos
Coordenadora do Ateliê Clínico Educativo Crianceria e membro do brecha.coletivo
Twitter_beatrizlcm
facebook.com/ateliecrianceria
crianceria.org
Um Brasil que deve ser e um Brasil que se devora
02/10/2012 § Deixe um comentário

Imagem inserida por Brecha.com.br
Por Gabriela Serfaty,
mebro da Universidade Nômade e do brecha.coletivo
Versão escrita da fala apresentada à Casa de Rui Barbosa, no seminário “Antropofagia e multidão – Tatu or not tatu”, em 6 de setembro de 2012.
“Viver é pertencer a outrem. Morrer é pertencer a outrem. Viver e morrer são a mesma coisa. Mas viver é pertencer a outrem de fora, e morrer é pertencer a outrem de dentro”.Fernando Pessoa
Oswald de Andrade no Manifesto antropofágico propõe uma forma de pensar alteridade na sua radicalidade. Ele inaugura uma desorganização na geografia ao mudar os trópicos de lugar. Para os Europeus, paternalistas, escravocratas e colonizadores, o canibalismo praticado pelos selvagens era visto como primitivo e negativo. Numa visão positiva e inovadora, Oswald resgata metaforicamente esta prática para pensar a cultura brasileira. Ser devorado, regurgitado pelos ’’primitivos’’ ditos passivos porém selvagens, que com sede e fome colocam um tempero a mais no caldeirão; o que faz com que o colonizador deixe de ser uma ameaça para ser incorporado no colonizado que retira da morte, sua vida.
É a partir desta relação canibal-colonizador que Oswald quebra com a lógica de dominação e de inferioridade que tomava conta da identidade brasileira e propõe uma visão afirmativa com o que vem de fora: receber da hegemonia dos países do norte a moral e seus bons costumes, mas não só absorvê-los passivamente e sim transformá-la em algo que seja nosso. Esta é uma tentativa de repensar rigorosamente a cultura e todo o processo civilizatório com sua dinâmica totalitária, quando o outro passa a ser desejado e devorado na sua diferença. Trata-se de uma alteridade que se torna viva e pronta para ser deliciosamente saboreada. Deixa de ser temida para se inscrever na cultura menor. Assim, o que vem de fora passa a ser servido no banquete junto com todos os outros ingredientes. O fora passa a fazer parte do dentro e nesse processo de canibalização, surge alguma coisa nova: um meio índio, um meio negro, meio branco com suas diferenças que se multiplicam. Um jogo de contágio, onde o fora e o dentro se relacionam de tal forma que surge algo chamado Brasil. Trata-se de recusar ao extremo o paralelismo cartesiano que percebe a diferença de forma comparativa com um ideal de pureza e representação, para a partir daí pensar a diferença pura, sem que o diferente signifique desigualdade de raça, de gênero, de classe e de comportamento, mas sim uma algo desejado.
Dentro deste contexto, o movimento antropofágico não nega as influências da cultura européia em troca de uma cultura popular e regional, ao contrário, faz dessas influências, paternalistas e representacionais, matéria prima de novas singularidades brasileiras.
As relações passam a existir no contato de um sujeito em direção ao outro e é neste campo de forças, sem exterioridade e idealismo, que certa desobediência, antes controlada e reprimida, é ativada neste devir primitivo. Ao devorar as preciosidades européias, se produz subvidas potentes e alegres agenciadas por um campo de imanência que retira a economia libidinal e política do plano transcendental.
É nesta mudança de perspectiva que a ideia de subdesenvolvimento é repensada como uma forma de vida e não uma vida sem forma. Oswald percebeu que ao descolar-se da ideia de dependência e independência, da falta e da fantasia de um país atrasado para uma ideia de interdependência, quebra-se essa relação entre o colonizado e colonizador.
Mas como podemos pensar a antropofagia nos dias de hoje? Dentro de um mundo capitalista globalizado que funciona em rede e com uma enorme circulação de informações, mercadorias e pessoas, onde as fronteiras se dissolveram para o capital poder circular livremente, onde está o fora? Onde foi parar a Europa?
Os pares que definiam o conflito político na modernidade se embaralharam, o poder e o fora não se manifestam tão abertamente como no passado, mas os conflitos, tanto micro quanto macropolíticos continuam impregnados de valores morais que nos foram exportados. Apesar de algumas esferas da sociedade ‘’romperem’’ com alguns valores como um sujeito assalariado e um casamento até que a morte nos separe, foram criadas novas identidades mais flexíveis que acompanham o engendramento do capital e continuam sendo fabricadas em torno de um ideal de vida pré definido.
De tal modo, para fugir deste turbilhão de navegações, de ventos, de tendências e de fluxo, a fabricação de um sujeito assujeitado é uma alternativa estável. Capaz de controlar as esferas selvagens da subjetividade onde se apoiam as grandes instituições que representam o mercado e o estado neoliberal globalizado e deixam certa Europa morar em terras tropicais. Isto quer dizer que o centro continua a apontar as tendências e os bons costumes, mas o centro agora está dentro, as fronteiras já não são físicas, mas imaginárias. São fronteiras abstratas, que detém o poder de comandar concretamente o desejo e os processos de subjetivação e fazer com que os habitantes da terra mundializada tendam a produzir a si mesmos e sua relação com o outro em função destas imagens.
É na construção das singularidades que o imperativo do capital se manifesta impondo uma visão vertical, apodera a mente de todos os saberes e os deveres e faz dela uma reguladora dos abalos, nada deve fugir ao autocontrole, para isto procura-se um calmante, uma terra firme, um corpo a seu serviço, um corpo que não pode sentir, só deprimir, um corpo morto-vivo. É com este corpo que criam classificações: o Ser Artista, o Ser Político, o Ser Informal, o Ser Servidor, o Ser Pobre, o Ser Classe A, o Ser Classe B, o Ser Classe C. Cito um trecho do manifesto Poesia Pau Brasil:
”O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. País de dores anônimas, de doutores anônimos.O Império foi assim. Eruditamos tudo’’. (Oswald de Andrade)
Assim se foge da selvageria dos mundos possíveis, das terras ainda inabitadas e se criam autistas de um identidade só, imersa em identidade portátil, um certo deve ser assim, que impede o corpo de ir mais além. É dentro dessa estrutura onde o capital parece ter capturado todas as esferas da vida e produzido identidades brasileiras prontas para serem vendidas e passivamente devoradas, onde a antropofagia pode ser novamente reativada? O projeto modernista de Oswald de Andrade tentou descolonizar o pensamento e mudar a consciência de lugar, mas esta consciência européia continua disfarçada por ai, produzindo corpos vestidos de vergonha, corpos endividados,, comportados, vegetarianos, alongados e na medida. Mas e os desvios e os excessos? E aquilo que foge a esta nova forma de colonização?
Onde o estado deixa de operar sobre os órgãos e imprimir registros sobre o corpo, é que ele pulsa, racha, desorganiza, se solta, se suja, o corpo que se marginaliza. Um corpo vivo é sem órgãos, isto é, sem códigos e sem um funcionamento fechado e crônico. É um corpo que transforma Macabéias em Macunaímas e redescobre uma tentativa de ‘’reeducação da sensibilidade’’, como diz Suely Rolnik. Logo, para reativar a antropofagia é preciso se desfazer desta obediência cega a este Outro colonizador já interiorizado, que desde sempre esteve penetrado na política brasileira. É preciso fazer com que o desejo e os processos de subjetivação tenham uma relação com o outro dentro no campo da experimentação.
Desta forma, é no reconhecimento de certa vulnerabilidade que o outro pode deixar de ser apenas um objeto da representação e se tornar um corpo vivo, devorável em um território que não é seu, deixando o outro invadir pelo corpo, pelo pé e pela mão. Para se abrir ao vulnerável é necessário certa ativação da percepção. Não se trata de ser dominado pelo outro, mas virar outro do outro. ‘’Outrar-se’’, disse Fernando Pessoa. Nem que seja por um instante, perder-se de si, do compromisso sério consigo e deixar esse Eu sair da zona central e escorrer pelas extremidades, caminhando pela orelha, punhos, mãos, dedos até chegar aos pés. Deixar o corpo perder o umbigo, ou melhor, fazer esse umbigo ir para a cabeça. Criar para si um corpo sem órgãos, com uma dose de prudência e um mínimo de território para deixar passar as intensidades e fazer o organismo perder o eixo. Desorganizar-se no encontro com outro. Pensar com o pé e sambar com o pensamento. Se permitir experimentar esta vulnerabilidade, onde o corpo é vital, volátil, líquido, gás e solido, ou seja, múltiplo. Permitir ser devorado e deixar a periferia operar descentralizando a subjetividade em todas as suas esferas, não deixando o corpo ser coordenado por uma dinâmica narcísica que constrói um corpo enrijecido a serviço do imperativo de um pensamento representacional.
Ainda neste processo, aparecem os sintomas como do trabalhador com sua insatisfação estável, que ‘’assegura’’ o sujeito destes terremotos. Cito Suely Rolnik, num trecho do texto Geopolítica da Cafetinagem: “na política de subjetivação em curso tem sido a anestesia da vulnerabilidade ao outro – anestesia tanto mais nefasta quando este outro é representado como hierarquicamente inferior na cartografia estabelecida, por sua condição econômica, social, racial ou outra qualquer. É que a vulnerabilidade é condição para que o outro deixe de ser simples objeto de projeção de imagens pré-estabelecidas e possa se tornar uma presença viva, com a qual construímos nossos territórios de existência e os contornos cambiantes de nossa subjetividade”.
Como fazer desta política de subjetividade uma forma de criar um Brasil onde a Europa se desloque do umbigo do mundo? Onde a periferia e o centro não mantenham relações de hierarquia e as subjetividades brasileiras não se definam apenas pelo neo-arcaísmo da Igreja Pentecostal ou pelo estilo de música Tecno-Brega, mas que estas esferas possam se devorar e se contaminar a ponto de produzir uma hibridização da cultura, da sexualidade, da política, da estética e por fim da ética.
Novas subjetividades brasileiras estão a todo vapor criando suas formas de vida fora de grandes instituições; nas esquinas, nos morros, nos bares, na rua, no camelô, no baile Funk, nas praças. Um Brasil que se multiplica em brasis, uma potência para certa resistência, criar um Brasil sem O Brasil Maior. Uma produção de subjetividade que não pára de ser produzida em uma velocidade tamanha que não cabe mais um nome ou muito menos um sobrenome: deve ser assim o Brasileiro. Em troca desta identidade, uma subjetividade brasileira que experimenta um exercício intensivo das ruas, o mergulho do corpo vivo e precário, dos sujeitos vulneráveis, mas livres na via esquizo dos devires, nos atritos entre intensidades heterogêneas e seus efeitos violentos que desmancham, criam formas de existências munidos de potência, que devoram o capital e fazem dele instrumento de resistência, de sobrevivência e portanto ameaçam o capital por não entrarem na cadeia produtiva.
Assim, ao invés dos corpos determinados biologicamente, corpos selvagens atravessados pelas experiências, ao invés do inconsciente freudiano, o inconsciente antropofágico do intestino e do pé é a ética da alteridade. Abrir canais, criar rachaduras, criar gagueira na própria língua, disse Deleuze. Inventar uma língua de cabeça para baixo.
São os Franciscos, os Joãos, os Silvas que na insistência da sub-existência, revelam que é preciso resistir à tradição, sem resignação, mas que insista na transformação e na produção de um outro modo de vida sub. Como diz Negri: “Ao lado do poder, há sempre a potência. Ao lado da dominação, há sempre a insubordinação. E trata-se de cavar, de continuar a cavar, a partir do ponto mais baixo: este ponto … é simplesmente lá onde as pessoas sofrem, ali onde elas são as mais pobres e as mais exploradas; ali onde as linguagens e os sentidos estão mais separados de qualquer poder de ação e onde, no entanto, ele existe ; pois tudo isso é a vida e não a morte.”
Afinal toda essa antropofagia vira Youtube e novela.
Publicado originalmente em: http://uninomade.net/tenda/um-brasil-que-deve-ser-e-um-brasil-que-se-devora/
Brecha na TV Brasil
17/04/2012 § Deixe um comentário
Semana passada foi ao ar, no programa Estúdio Móvel da TV Brasil, uma entrevista que gravamos no início do ano.
O programa, que vai ao ar toda segunda e terça às 18h00, já havia entrevistado outra “Brechiana”, a Mariana Kaufman, sobre suas criações audiovisuais dentro (MOB, Os Inocentes, JUNTO, A_Borda) e fora do coletivo, num encontro descontraído na Base Coletiva do Teatro Glauce Rocha.
Dessa vez, fomos aos jardins do Palácio do Catete, no Rio, para nossa primeira entrevista coletiva. Isto é, fomos entrevistados coletivamente
Vejam acima o resultado. Obrigado à Giselle Ribeiro que editou pra gente esse trecho, e a Liliane Reis, apresentadora do programa.
Assistam também o episódio na íntegra (com entrevistas com Ticiana Porto e Marcelo Caldi)
AQUI.
Missão cumprida em Sampa!
28/03/2012 § Deixe um comentário
Hoje, 28 de março de 2012, 12h40, cerca de 20 agentes se dirigiram para a Av. Higienópolis, ao lado, do Shopping Higienópolis, em São Paulo, para realizar uma operação de remoção. Seis prédios seriam demolidos para a implantação do projeto NOVA HIGIENÓPOLIS.
O empreendimento, inovador, realizaria uma revitalização completa da região, com a construção de imóveis comerciais e centros culturais, além de ampla melhoria na infraestrutura, com o alargamento de avenidas e ampliação da rede metroviária.
Mais fotos AQUI (da Fer Ligabue, parceira da Filmes Para Bailar)
e AQUI (do Bruno Dias, mais um fotógrafo colaborador do BaixoCentro).
Os agentes espalharam cartazes com as informações sobre o andamento do processo de desapropriação, informando a população. Em seguida, começou a interdição da área, primeira ação para a implantação do projeto.
Os 20 agentes espalharam fitas zebradas por toda a área, formando uma larga camada colorida de amarelo e preto. A ação durou cerca de 15 minutos e, claro, era tudo falso.
Se tratava de mais uma ação do Brecha Coletivo, em colaboração com o Festival BaixoCentro.
A intervenção criou temporariamente uma realidade que não se encaixava com o tradicional e tranquilo bairro de Higienópolis.
Através dessa falsa operação, os moradores do bairro puderam sentir de forma bastante subjetiva a realidade de comunidades que sofrem remoções forçadas e, não raro, ultra-violentas.
Perder a casa onde moram há décadas, e onde criaram seus filhos e netos parecia algo terrível, digno de revolta, luta e negação. “Você sairia numa boa da sua casa?”, ouvimos de um morador que parecia à beira de um ataque de nervos.
Assim, deixamos a cidade com a impressão de que a ação atingiu seus objetivos: levantou o debate o conseguiu fazer com que a reflexão sobre o direito à moradia não seja, para os moradores de regiões não afetadas por políticas de remoção, apenas algo abstrato, que não afeta suas vidas. Tudo com boa dose de lirismo e bom humor.
*em breve, vídeo da ação!
FICHA TÉCNICA
CONCEPÇÃO
Lisa E. Fávero, Mariana Kaufman, Patrick Sampaio e Rodrigo Lopes
PRODUÇÃO
Alonso Zerbinato, Eduardo Cravo, Monalisa Gomes, Rodrigo Lopes e Festival BaixoCentro
FOTOS E VÍDEOS
Fer Ligabue, Bruno C. Dias, Leo Foletto e Rodrigo Lopes










